terça-feira, 20 de março de 2007
Sonhar um sonho Português
De origem natural, para uns. Para os outros crentes, de origem divina.
Produto da cultura, para nós, os que acreditamos ser a voz de cada povo o resultado de um processo sedimentar lento, fertilizante pela diversidade sonora das línguas que ao longo dos tempos ocupam um espaço geográfico limitado, território de afectos, espaço de sonhos com uma identidade própria, ao qual vulgarmente chamamos o "nosso país".
A voz, no cantar dos povos do sul, sofrendo influencias predominantes da cultura mediterrânea, é caracterizada pelas vocalizações de timbre agudo, pela preferência das vozes de garganta, ásperas, equilibradas pela maleabilidade ágil dos desenhos melismáticos tão vulgares nas músicas da tradição oral, capazes de expressões de sentimento e emoção profunda.
(...)
Pedro Caldeira Cabral
O sonho falado em português
Talvez o inconformismo face à exiguidade, talvez a inconstância face à ambição...
Mas, na sua origem, sempre sonho. Um sonho rimado em português, que se verte na ousadia de encher os cinco continentes com a sonoridade da nossa língua, que se dispersa na mudança de um mundo diluído em vizinhanças.
É a esse sonho, feito aventura, ..., não numa evocação saudosista, de quem busca em irrepetíveis glória do passado a matriz da sua própria grandeza.
Mas na visão contemporânea do que sobrou dessa História.
Porque somos o que somos e esse é o produto da nossa circunstância: grandes no sonho lá fora, pequenos no despertar cá dentre.
Daí que o sonhar, transposto no além fronteiras, não seja um desígnio de afirmação, mas um recurso de sobrevivência.
Daí que a nossa aventura, no aceitar de tudo o que se recusa à pátria berço, seja um assumir de coragem para desafios jamais imaginados.
Daí que o nosso sucesso, no desfecho dessa aventura, seja o preço do insucesso na afirmação de uma nacionalidade.
Talvez porque o português viva a sua própria diáspora num excessivo apego personalista à solidariedade comunitária: não se impõe na sua identidade cultural, não se assume em bastião de portugalidade face ao país de acolhimento.
Dilui-se na multidão, mas permanece no falar da sua língua.
É em português que conversa em família, educa os filhos, ouve os relatos de futebol e vibra com a Selecção. E, sozinho, é em português que não desiste de cantar, de rir, de chorar. E que persiste em sonhar...
Um sonho que sempre foi - e será - falado em português.
Porque o seu ser, a razão do seu partir, é a razão do seu voltar.
E a sua língua é um padrão, a emanação visível desse invisível cordão-umbilical que o mantém ligado à terra-mãe - ou madrasta que fosse...
Pois ele sabe, sem ler Pessoa, que a sua Pátria é a sua Língua.
E que, por mais distante, nela habita Portugal!
Mário Assis Ferreira
terça-feira, 13 de março de 2007
Om Tat Sat
onde a energia era menos criativa.
Estávamos destinados a embarcar
na densidade da matéria.
O Inominável Criados
enviou-nos um grupo de seis seres
destinados a resgatar as consciências
mais avançadas
deste planeta tão denso.
Aqueles que ultrapassam Maya,
a grande ilusão,
serão de novo transportados para a Origem,
onde reina o sentido de unidade total.
A esses seres o Inominável chamou
Blasted Mechanism.
Nascidos do Som primordial,
transformaram a energia do espaço
abrindo portais de Luz
de onde podemos ir beber sabedoria
e compreendeu que temos
que deixar a matéria para começar...
simplesmente a Ser.
Contempla!
Torna-te a Luz, torna-te o Som.
Tu és o teu Mestre e o teu Deus.
És TU PRÓPRIO
o objecto da tua busca
Rende-te...
à VOZ DO SILÊNCIO.
Blasted Mechanism em "All the way"
sexta-feira, 9 de março de 2007
Blasted Empire
Os Blasted Mechanism são uma banda portuguesa de rock alternativo, composta pelos membros Karkov (voz), Valdjiu (bambuleco, guitarra), Ary (baixo), Syncron (bateria), Winga (percursão) e Zymon (guitarra, cítara, teclas). Embora centrada no rock, a sua música recorre a vários elementos electrónicos. A banda foi formada em 1996 e ficou conhecida por se disfarçarem de extraterrestres nas s
uas actuações ao vivo.
Os Blasted Mechanism não foram “criados”, mas “inventados” em 1994, como uma banda diferente do espectro musical Português – a música era (como ainda é) o veículo principal, mas, imagem e atitude têm sido os factores favoritos de um projecto artístico que se auto define como música do mundo tocada por seres de outro mundo. A imagem forte e extravagante, o conceito artístico e musical vincado e a proximidade ideológica com a vasta cultura oriental foram fundidas num caldeirão que atraiu e fidelizou público para os Blasted Mechanism. Se não são a melhor banda, com mais fãs, são, de certeza, a mais original dos últimos anos e chegam agora com o terceiro trabalho, «Avatara», celebrando mais de uma década de existência do “mais incrível projecto que já pisou os palcos portugueses.
«Avatara» é, segundo os próprios Blasted Mechanism, “a quarta geração de uma linhagem que não pára de evoluir rumo a um conhecimento que se quer Supremo”. Neste trabalho, cujo single de apresentação é “Blasted Empire”, os Blasted Mechanism dizem ter publicado em som imagens do mundo, das gentes, das cores e odores, tocando aquilo que os “aproxima de todos os povos do Mundo – a Espiritualidade.”
O single de apresentação do álbum, «Blasted Empire», é constituído por ritmos frenéticos, linhas de baixo espessas, bambulecos, didjiridoos, acoustic sitar e percussão quase brusca, com voz ritmada e impetuosa a cantar palavras ágeis. Apela à dança, à expressão corporal. Era, segundo a promoção, o que se podia esperar de uma Banda que mescla a música tradicional do mundo com rock, electrónica, dialectos e instrumentos exclusivos.
Foram nomeados para a MTV, como melhor banda Portuguesa, em 2005.
Em 2006 são galardoados com o globo de ouro, pela SIC, como melhor banda Portuguesa
Definitivamente, uma das melhores bandas musicais no género.
BLASTED MECHANISM | Karkov Lyrics
Karkov, nadabrovitchka duldjie Karkov,Bradobva slavograt, un duldjie moodcranav.Drismov, bradano shultze mie te drismov, Naboltse drumo slavograt,un duldjie moodcranav.Gun dag, djamino djie djie do… Huk dag drudavie mie te su. Karkov nadabrovitchka duldjie karkov,Madrone zie tuscravitz, da zudazie viet su. |
A História
“Inventados” em 1995, os Blasted Mechanism cedo se assumiram como uma Banda diferente de todas as que “habitam” o espectro musical Português – a música era (como ainda é) o veículo primário, mas, imagem, atitude, Talento e o marcar de uma posição seriam sempre os predicados favoritos de um projecto artístico que se pode definir como música do mundo tocada por seres de outro mu
ndo.
A imagem forte e extravagante, o conceito artístico e musical vincado e a proximidade ideológica com a vasta cultura oriental foram fundidas num caldeirão que atraiu e fidelizou público que elege hoje os Blasted Mechanism como um dos mais relevantes projectos musicais portugueses.
Com uma carreira discográfica estável, é nos palcos que se descobrem os verdadeiros Blasted Mechanism – aí se funde a força da imagem com o poder da música, numa fó
rmula única e imparável, sem possibilidade de comparação
com qualquer outro projecto artístico conhecido no nosso país. Os Espectáculos são verdadeiras celebrações às quais não é possível ficar indiferente.
Com uma existência marcada por 3 gerações (uma geração
corresponde a um novo disco e a uma nova imagem), a carreira dos Blasted Mechanism tem sido construída gradualmente, num sentido solidamente ascendente.
Outubro de 2004 marca o final de uma digressão (Namaste Tour) de dezoito meses – 100 Espectáculos e mais de 400.000 pessoas na assistência – e consagra definitivamente os Blasted Mechanism como os eleitos da faixa estudantil (secundária / universitária – 14 / 25 anos).
A nomeação para Artista Português do Ano 2003 nos prémios MTV, as passagens pelos maiores Festivais de Verão em 2003 e 2004 e a presença em todas as Semanas Académicas e Queimas das Fitas portuguesas são momentos-chave em 18 meses non-stop.
É no último trimestre de 2004 que nasce “Avatara”, o tercei
ro disco de originais.
Em Março de 2005 os Blasted Mechanism regressam aos escaparates e aos palcos com a quarta geração, no ano em que se celebra uma década de existência do mais incrível projecto que já pisou os palcos portugueses.
E com uma acção inédita em Portugal – o Passaporte para Avatara (uma digressão com 6 datas, onde a pré-compra de “Avatara” garantia o bilhete para os Espectáculos de apresentação) – os Blasted Mechanism atingem o 1º lugar do Top de vendas português.
Após várias semanas de vida no Top, “Avatara” atinge o galardão de Ouro (vendas superiores a 10.000 unidades) e afirma os Blasted Mechanism como uma Band
a transversal e acessível a todos.
“Avatara” caminha agora a passos largos para a Platina, tendo vendas superiores a 15.000 unidades.
A digressão 2005 / 2006 levou já os Blasted Mechanism a mais de 50 localidades, tendo passado pelos principais Festivais Portugueses e por muitas das queimas das fitas.
É também em 2005 que se dá o arranque efectivo da carreira internacional dos Blasted Mechanism – “Avatara” está licenciado para 16 países e garantiu a apresentação da Banda em toda a Europa, com mais de 40 apresentações em países como a Alemanha, Reino Unido, Grécia, Áustria, Suiça, República Checa, Holanda, Bélgica, Luxemburgo.
2006 será o ano de tentativa de consolidação em territórios como os EUA, Canadá, Japão, Brasil, França e Espanha.
Para fechar o ano de 2005, os Blasted Mechanism são
nomeados pela MTV para Best Portuguese Act.
A entrega do prémio acontece no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, no dia 3 de Novembro, em conjunto com a entrega dos MTV European Awards 2005.
Se os Blasted Mechanism forem os vencedores vamos ter que alterar a biografia… mas não há problema.
E ao olhar para trás, uma questão se impõe: O que esperar de uma Banda que me
scla a música tradicional do mundo com rock, electrónica, dialectos e instrumentos exclusivos?
A resposta é: Tudo!
BLASTED MECHANISM
Com um álbum editado há cinco meses, os Blasted Mechanism, autores de «Karkov» e «Are you Ready» subirão ao Palco do Sapo Surf Bits com a energia contagiante que lhes é habitual, e prometem um grande espectáculo.
«O prometido terceiro trabalho dos Blasted Mechanism viu a luz do dia a 21 de Março de 2005, quando se celebrava uma década de existência daquela que é definitivamente u
ma das mais carismáticas Bandas portuguesas e que é usualmente definida como criadora de música do mundo que é tocada por seres de outro mundo.
Após a edição de «Namaste» e do buzz que provocou, qual o caminho a tomar pelos Blasted Mechanism? A resposta poderá ser encontrada em «Avatara», o novel mundo dos Blasted Mechanism, a quarta geração de uma linhagem que não pára de evoluir rumo a um conhecimen
to que se quer Supremo.
Em «Avatara» encontram-se imagens – do Mundo, das gentes, das cores e dos odores. Em «Avatara» encontra-se aquilo que aproxima os Blasted Mechanism de todos os povos do Mundo – a Espiritualidade.
«Avatara» será considerado o trabalho que elevou definitivamente os Blasted Mechanism. Encontradas as melodias, foram encontradas novas estruturas que aproximam os Blasted Mechanism àquilo que se define como canção. Não a canção comum. Não a canção como a conhec
emos até hoje.
Em «Avatara» descobrem-se novos caminhos da música popular marcados pela visão peculiar dos Blasted Mechanism – ritmos frenéticos, linhas de baixo espessas, bambulecos, didjiridoos, acoustic sitar e percussão quase brusca, voz ritmada e impetuosa escorada em palavras ágeis. Em «Avatara» descobre-se Maria João, Nel Assassin e os Dealema fundidos no caldeirão Blasted M
echanism – quem diria que o Hip Hop e o Jazz seriam tão bem recebidos nas estruturas étnicas e espirituais que habitam «Avatara»? Estará a musica popular a querer reformular-se?
«Avatara» é a essência de uma década, transformada em resenha musical – aqui se regista o império artístico construído em 10 anos, com um pé posto no futuro.
«Avatara» é o bilhete de identidade dos Blasted Mechanism,
impresso numa carreira que se impõe sem reservas.»
«Avatara» será o mote para a actuação da banda no Sapo Surf Bits, em Ribeira D’Ilhas.
Blasted Mechanism - Blue Mood
Blasted Mechanism
Watch the old man Listen carefully to all he has to sayHe looks tenderThere is no rush in his words He thinks fluently and speaks wiselyHe thinks fluently and speaks wisely Blown from the universal mouth The super soap coloured bubbleIt's our homeYou're welcome at anytimeNo other place in the world is so cosyNo other place in the world is so Show me your interiorAnd I'll share my visionsWhile we drink the sweet tea of truthYou'll get back to reality As soon as that incense stick burns outLungs aheadYou'll spit the smokeTo make a clutter on my headI can solve it on the way To the bottom of my soulTo the bottom of my soulTo the bottom of my soulTo the bottom of my soul Blown from the universal mouthThe super soap coloured bubbleIt's our homeYou're welcome at anytime No other place in the world is so cosyNo other place in the world is so Blown from the universal mouthThe super soap coloured bubble It's our homeYou're welcome at anytimeNo other place in the world is so cosyNo other place in the world is so cosy
| Blasted Mechanism Palco Principal |
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| Impossível a quem vem um concerto de Blasted não ficar conta guiado pela energia por eles transmitida em palco! Uma banda em que não é difícil prever o seu futuro...Internacionalização! Mas enquanto tal não acontece vamos aproveitando os grandes concertos que vão dando por Portugal e apoiar ainda mais esta banda! Pena foi não terem ganho os prémios da MTV, mas também foram muito bem entregues! Não percas mais uma entrevista efectuada nos MTV Live'n'Loud pela nossa colaboradora jornalista Soraia Guerreiro. |
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| A Garagem – Karkov, Ary e Valdjiu, foram nomes escolhidos aleatoriamente ou existe alguma relação entre o nome do personagem e a personalidade de cada um?
tista, fazemos um brainstorming e a partir daí evoluímos. Continuamos no fundo a subir a escada. stem no mundo. Mas é uma fusão muito própria, feita por uma pessoa só e não por um grupo de pessoas. Porque uma língua é desenvolvida por um grupo de pessoas que partilha as mesmas ideias e acima de tudo o mesmo espaço geográfico e as mesmas necessidades. Aquela foi desenvolvida por uma só pessoa, o Karkov.
e terem de se renovar em cada nova actuação para tornar cada espectáculo único?
e à Inglaterra pela segunda vez. As coisas lá fora andam devagar. O mundo é maior do que Portugal e a energia que se dispensa é também maior.
strar bandas menos conhecidas a quem tem interesse em conhece-las e ajudá-las a ganhar um "lugar ao sol". O que acham deste tipo de projectos?
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| Entrevista: Soraia Guerreiro |
Blasted Mechanism - "Balayhashi"
Há quem considere os Blasted Mechanism como a melhor banda portuguesa ao vivo. Na verdade, estiveram presentes em quase todos os eventos festivaleiros no Verão passado (Super Rock, Sudoeste, Paredes de Coura, Noites Ritual Rock,...). Graças à sua coreografia um pouco peculiar, ficaram na memória da muita gente como «a tal banda que costuma actuar com uns tentáculos estranhos enfiados na cabeça». No entanto, poucos conhecem esta banda de Carcavelos. Porquê ?... Para começar, não têm até à data nenhum álbum editado. Apenas um CD single de três temas, produzido pela própria banda, e int
itulado "Swinging With The Monkeys" (que inclui, além do tema-título, as faixas "Calamidad" - incluída na compilação do Alta Voltagem - e o excelente instrumental "The Atom Bride Theme"); e mais recentemente, este EP "Balayhashi", com o selo da Candy Factory - Música Alternativa, e que inclui, para além dos três temas do CD single, mais dois inéditos: "Polaroid" e "Gators From Congo". Para a
ssinalar o lançamento deste EP (fruto de um contrato com a Música Alternativa, que prevê ainda a edição do primeiro álbum dos Blasted Mechanism no princípio deste ano), deram, inclusive, um concerto no IST, na sequência do CONTRABANDIST.
Com um som ska, por vezes a fazer lembrar os Primitive Reason, a b
anda consegue neste disco ir muito além da banalidade que tantos grupos ska representam; utilizam além disso os mais variados instrumentos, entre os quais se contam bidons, djembées, clarinete e o "bambuléco" (um misto de baixo e guitarra), que ajudam a acrescentar uma tonalidade funk/acid jazz. Enfim, não há que colar rótulos - é apenas Blasted Mechanism... uma das melhores bandas portuguesas que já ouvi nos últimos tempos!
Blasted Mechanism - Zapping
Blasted Mechanism
What if your eyes could be the mirror of my soul?What if your ears metamorphize to speakers?What if you wanted to unmask my greatest solid lies? It would be easy for youIt would be easy What if your eyes could be the mirror of my soul? What if your ears metamorphize to speakers?What if you wanted to unmask my greatest solid lies? It would be easy for youIt would be easyIt would be easy for you It would be easyIt would be easy for you Our dreams are often changing back to nightmaresOur hopes destroyed and reconstructed again Cold winds allow you to restart what hasn't finishedyet It would be easy for you Our dreams are often changing back to nightmaresOur hopes destroyed and reconstructed againCold winds allow you to restart what hasn't finished yet It would be easy for youIt would be easy It would be easy for youIt would be easyIt would be easy for you

Blasted Mechanism
Inventados em 1995, os Blasted Mechanism cedo se assumiram como uma Banda diferente de todas as que habitam o espectro musical Português – a música era (como ainda é) o veículo primário, mas, imagem, atitude, Talento e o marcar de uma posição seriam sempre os predicados favoritos de um projecto artístico que se pode definir como música do mundo tocada por seres de outro mund
o.
A imagem forte e extravagante, o conceito artístico e musical vincado e a proximidade ideológica com a vasta cultura oriental foram fundidas num caldeirão que atraiu e fidelizou público que elege hoje os Blasted Mechanism como um dos mais relevantes projectos musicais portugueses.
Com o novo ano chega o prometido terceiro trabalho dos Blast
ed Mechanism, quando se celebra uma década de existência do mais incrível projecto que já pisou os palcos portugueses.
Após a edição de «Namaste» e do buzz que provocou, qual o caminho a tomar pelos Blasted Mechanism?
A resposta poderá ser encontrada em «Avatara», o novel mundo dos Blasted Mechanism, a quarta geração de uma linhagem que não pára de evoluir rumo a um conhecimento que se quer Supremo.
Blasted Mechanis
m - A Saga Continua...
De dois em dois anos, no início do ano. É este o relógio biológico, místico, criativo dos Blasted Mechanism. Sim, vem aí um novo álbum, previsto para os primeiros meses de 2007, do colectivo de Karkov, Ary, Valdjiu, Sync, Zymon e Winga. Enquanto o disco não chega, aqui ficam duas entre
vistas com a banda a propósito dos seus dois últimos álbuns, «Namaste» e «Avatara», originalmente publicadas no BLITZ em Fevereiro de 2003 e Março de 2005, respectivamente.
BLASTED MECHANISM
O DIVINO QUE VIVE EM NÓS
Quem são os 22 bebés-diamantes que irão conduzir a Terra a um futuro melhor e mais brilhante? Quem são os músicos africanos que iluminam alguns temas do novo álbum, «Namaste
», dos Blasted Mechanism? E o que é que os Blasted têm a ver com a cultura rave? Porque é que parece haver algo de muito importante a acontecer num armazém de uma aldeia chamada Abóboda? E o que é que Bilal e Giger têm a ver com isto tudo?... As respostas seguem já a seguir, nesta entrevista em que respondem Karkov, Valdjiu e Ary e que tem como mote «Namaste» e tudo à sua volta (do Divino ao mais humano).
O que é que significa «Namaste» (NR: leia-se «Namastê»)? Tem alguma coisa a ver com a palavra em sânscrito que significa «o Divino que vive em ti»?
É isso mesmo. E é uma saudação. Para nós, é uma saudaç
ão à Humanidade, como se nós nos curvássemos perante a Divindade dos seres humanos. Em 1986 os Blasted criaram um conceito, uma história ficcional, que tem tido desenvolvimentos. Houve uma raça de seres de outro planeta que aportou à Terra. Houve o desenvolver de seres vindos de um ambiente aquático e que povoaram a Terra. Agora, há seres que estão espalhados pelo planeta e que ninguém sabe quem são - os bebés-diamantes - que poderão levar o planeta a uma nova dimensão. Os be
bés-diamantes, que têm sido estudados pela cultura nepalesa, são mentes altamente predispostas para fazer a mudança da Humanidade, uma mudança de modo de vida, de mentalidades, de conceitos. Na nossa ficção, os Blasted anunciam a chegada, preparam o terreno, dessas crianças-diamantes... E esta ficção poderá passar para uma narrativa, em banda-desenhada, proximamente.
O novo álbum começa a ter características mais ele
ctrónicas a partir do tema 6, até parecendo um velho LP com dois lados. Esse «lado B» - que é mais «Mechanism» apesar de continuar a ser «Blasted» - parece ser a continuação lógica do álbum de remisturas «Mix00» e até de alguns concertos vossos mais recentes. O álbum de remisturas fez mesmo os Blasted repensarem a sua música?
Essa parte dos dois lados está correcta: gostávamos que as pessoas tenham tempo para entrar no ambiente do disco, para fazer uma viagem que tenha um princípio, um meio e um fim coerentes. O álbum de remisturas foi importante porque nos deu a oportunidade de exprimirmos aquilo que queríamos fazer em estúdio, experimentando. As remisturas foram muito feitas por nós próprios, em estúdio, com uma forma diferente da produção clássica; e com algumas pessoas exteriores a ajud
ar.
Mas os vossos concertos mudaram a partir daí...
O «Mix00» foi um disco de transição porque, finalmente, conseguimos misturar ambientes musicais que já queríamos recriar há muito tempo e que não conseguiam saltar só com o baixo, a bateria, a guitarra, a voz... Mas, mesmo antes de termos feito as remisturas, nós já o
uvíamos aqueles ambientes atrás das músicas. Depois, em cima do palco, com a energia rock inerente à banda, conseguimos transformar esses temas em grandes paredes, grandes massas, de som.
Vocês nunca foram apenas um grupo rock - desde o início que há outras músicas na vossa música. Mas em «Namaste» ainda está mais presente o recurso a músicas de diversas proveniências (África ou Índia, por exemplo, mas também a electrónica, o funk, o dub, o ragga...). Os Blasted estão, definitivamente, cada vez mais fartos do rock?
Os Blasted nunca foram rock. Nós acabamos por nos servir do formato rock para dispararmos para todo o lado. Nós temos uma formação rock mas extravasamos para outros lados. O que se mantém rock, neste momento, é mais a energia dos espectáculos ao vivo. E nesse caldeirão rock nós damos um espelho do que é o mundo - mas longe da world music -, do que são outras
músicas.
Essa vossa aproximação a sonoridades vindas de várias partes do mundo parte de que tipo de necessidade? Uma necessidade estética - no sentido de precisarem de diversificar a vossa música - ou uma necessidade que tem a ver com a vontade de comunicar algo de diferente: uma mensagem de abertura ou uma postura política e de intervenção?
Tem a ver com a nossa vontade de transmitirmos um conceito, de chegarmos a mais pessoas, de irmos à procura de outras sonoridades. Nós não somos uma banda de intervenção social ou política - se bem que, se tivéssemos gravado o álbum agora e devido à conjuntura
mundial, talvez tivéssemos ido mais por aí -, mas temos as nossas convicções e temos temas em que mostramos as nossas ideias. O tema «I Believe» (NR: em que Karkov canta: «I believe in the power of people», etc.) é um manifesto de quem tem necessidade de uma mudança. Aqui, o cantor é um pregador que faz um alerta ao acordar das consciências.
E pode dizer-se que os Blasted, acima de tudo, pretendem fazer uma música tribal, xamânica, de festa e comunhão?
Sim. Nós criamos um cerimonial, uma celebração de festa, de comunhão; que obedece à conjugação de forças que nós extravasamos para a nossa ficção (NR: ver resposta à primeira pergunta). Principalmente ao vivo, pretendemos fazer uma celebração - e desde sempre que
se celebram as divindades através da música e da dança - e descobrir a Divindade que existe em nós e em quem assiste aos nossos espectáculos. Às vezes, costumamos fantasiar acerca dessa celebração e imaginamos que as pessoas que estão à nossa frente começam a dançar e a formar padrões de dança, como se fossem espirais ou fractais, surgindo um cone de energia enorme que nos envolve e suga a todos - Comunicação!!!... O público dos Blasted procura mais a felicidade e a harmonia do que al
go obscuro e pouco perceptível. E isso vem um bocado da cultura rave e das novas drogas, como o ecstasy. É xamânico, é um cerimonial... Mas nos nossos concertos também há momentos menos agradáveis, que pretendem consciencializar as pessoas de que nem tudo é tão bom assim. Nós encontramo-nos, também, no público. O nosso concerto no último Sudoeste foi de um carinho absoluto: nós gostamos muito de vocês e vocês gostam muito de nós. Houve ali um brilho incrível.
Onde é que foram descobrir os músicos africanos que cantam e tocam em «Taman Taman» e «Bolivian Feel» e, já agora, podem falar também um pouco das outras pessoas que também participam no disco?
Nesses temas quem participa são o Mestre José Brahima Galissa (voz e kora) e o Mestre Kabun (percussões), que vêm do Ballet Nacional da Guiné... O Galissa é musicólogo, é um mestre da cultura mandinga. Neste momento, estão cá músicos e bailarinos fabulosos - mais de trinta - que pertenceram ao Ballet Nacional da Guiné e que agora estão em Portugal a trabalhar nas obras. Estes
dois músicos que participaram no nosso disco são músicos excepcionais, pessoas que têm uma maneira muito especial de estar na vida. Temos um grupo de músicos que, aqui, vai
às Índias e à música klezmer que é a Bigodes Band, um trio de bombardino, acordeão e clarinete-baixo, em que participa o Luís Bastos, que já tinha colaborado no «Plasma». Aliás, é curioso que antigos membros dos Blasted lançaram também as suas sementes: o Miguel Cardona foi formar os Coldfinger; o Alex partiu para os Terrakota... Tivemos o Virgul, dos Da Weasel, num toast; o Salvatori, no didgeridoo. E tivemos quatro bateristas: o João Lencaster, que foi dos Blasted e que depois partiu mundo fora, e que é um fabuloso baterista, mais jazz e drum'n'bass; o Pantera, dos Montecara, mais dub e reggae; o Pedro Leal, que colabora com o Carlos Zíngaro, e aqui tocou guitarra e um kit de bateria bastante estranho; e o Fred Stone, que nos acompanha ao vivo. Nós tínhamos que diversificar as nuances rítmicas e foi nece
ssário trabalhar com pessoas diferentes. Depois, o trio de produção Toolateman (Valdjiu, Ary e Dominique Borde; com Karkov a fazer o trabalho de «rato de biblioteca» e as letras) tratou isto tudo. Estivemos um ano em estúdio a trabalhar com todas as pessoas e a tratar estas nuances todas. Isto, em termos financeiros, não tem preço.
Já parecem os Pink Floyd, vocês...
Só não estamos é num barco no meio do Tamisa (risos).
E como é que vão ser os novos concertos?
Nós passámos uma fase, os últimos três anos, em que praticamente
só trabalhámos nós os três e estivemos sem banda, praticamente sempre a ensaiar e a gravar em estúdio. Agora, o Luís Simões (dos Saturnia) começou a tocar ao vivo connosco, em guitarra eléctrica e sitar eléctrica... Ele fez uma remistura para o «Mix00» e vai também entrar para o núcleo de composição de um próximo disco; e temos desde há algum tempo um baterista brasileiro, o Fred Stone. Nenhum dos temas do novo álbum foi antes tocado ao vivo e estamos a ensaiar intensivamente para passarmos as canções para o formato ao vivo.
Vocês pensam integrar-se, falando de uma forma simplista, na
lgum tipo de movimento ou consideram-se um absoluto OVNi no panorama musical?
Os Blasted estão a tentar potenciar o talento de outros artistas, tanto em termos de estúdio como de sala de ensaios (NR: os Blasted transformaram um armazém, na Abóboda, perto de S.Domingos de Rana, em estúdio, sala de ensaios e escritório da sua editora, a Toolateman). Nós, por exemplo, fazemos o «Salvem a Música Portuguesa» à nossa maneira: temos uma editora, a Toolateman, para a qual já gravaram ou vão gravar o Mercado Negro (NR: projecto de Messias, dos Kussondulola), o J
osé Brahima Galissa (NR: guineense, cantor e tocador de kora, que participa em «Namaste»), os Montecara (NR: reggae), os Cartel 70 (NR: ragga/drum'n'bass), os Ylang Top (NR: projecto paralelo de Valdjiu) e, possivelmente, um duo romeno de acordeão e violino. Queremos que as coisas funcionem de igual para igual entre a editora e os músicos. Procuramos novos talentos, pessoas qu
e poderão também vir ou não colaborar com os Blasted; criar, talvez, um pequeno movimento... (NR: para além de alguns destes nomes, pela sala de ensaios passam também, sem ligação à editora, os Toranja ou os Dazkarieh). E a primeira edição da Toolateman é este novo álbum dos Blasted - neste caso muito bem casada com a Metrodiscos e com a EMI, que distribui e promove o disco.
Há alguma possibilidade de o vosso disco ter distribuição internacional?
Temos uma empresa inglesa que está a trabalhar connosco activamente, a Other Kind, que nos levou ao Atlantic Waves. Estivemos na Holanda, no festival Eurosonic, em Londres. E há possibilidades - já com contactos feitos - de o nosso álbum ser editado nos Estados Unidos, Inglaterra, Fra
nça e Austrália.
Vai haver remisturas de temas do vosso novo álbum?
Vai. Mas neste caso gostávamos de enviar os temas a remisturadores de top: os Thievery Corporation, os Groove Armada, o Lee Perry, o Mad Professor, os Air, os Da
ft Punk, os Gotan Project, os Sofa Surfers... Se for feito, será um projecto completamente externo a nós. E é uma tentativa de criar uma rede maior, conhecer novas pessoas, abrir novas portas...
Os Blasted sempre se preocuparam com uma série de coisas paralelas à música: a imagem, as luzes, os fatos e por aí fora. Desta vez, os novos fatos parecem saídos do imaginário de HR Giger...
E do Bilal, também. E do George Lucas (NR: leia-se «Guerra das Estrelas»). Nós partilhamos muitos interesses e muita informação entre nós. E é natural que as influências externas de vários tipos de arte possam estar adjacentes ao projecto. Mas isto só existe porque temos uma grande equipa a trabalhar connosco: o Cristóvão Veríssimo, que faz as luzes e que, como trabalhou em tea
tro, partilha connosco esse lado mais cénico; o Nuno Elias e o Frederico Gouveia, que fizeram e desenharam os fatos e as máscaras; o Dominique Borde - engenheiro-de-som que é nosso sócio na Toolateman e traz um background muito grande de França, tendo trabalhado com o Sakamoto, o Peter Gabriel, o Eric Serra, fez som para o Luc Besson; o Paulo Prazeres, que é o realizador do teledisco, «Are You Ready»; a Desorgan, que está a fazer o nosso site (NR: já acessível em www.blastedmechanism.clix.pt); o Tó Trips (NR: dos Lulu Blind e artista gráfico), que fez a capa e os anúncios; e os outros
todos.
BLASTED MECHANISM
AGARRA O RAGGA, GARRA NAS RAGAS
Depois de «Namaste» (ou, em sânscrito, «o Divino que vive em ti»), os Blasted Mechanism dão-nos mais um capítulo da saga que começaram a escrever há alguns anos: «Avatara» (ou, em sânscrito, «o Descendente de Deus incarnado»). Se calhar, não é mesmo por aca
so que que o novo álbum da banda está cheio de sitars, unindo raggas jamaicanos às ragas indianas.
Os álbuns conceituais estão fora de moda - é coisa dos anos 60 e 70, pensa-se, dos Beatles de «Sgt. Pepper's...» e das sagas do Rick Wakeman... -, mas, então, se isso é verdade, porque é que há uma banda portuguesa - os Blasted Mechanism - que, desde os primeiros discos, desenvolve sempre o mesmo conceito, disco após disco, espectáculo após espectáculo, como se toda a sua carre
ira fosse um livro - religioso? místico? new-age? de ficção científica? - e cada etapa mais um capítulo de uma história que parece interminável? E porque é que há cada vez mais tantas músicas na música dos Blasted, do reggae ao rock progressivo, das ragas indianas às novas electrónicas, de percussões africanas ao hip-hop?
Valdjiu e Ary - os dois Blasted que falam nesta entrevista - come
çam por explicar o que liga, tematicamente, o novo álbum, «Avatara», ao anterior, «Namaste» e em que fase da «grande narrativa» Blasted é que estamos agora. Diz Valdjiu: «"Avatara" é um conceito que transporta, em si, o espírito daquilo que os Blasted sentem em relação à vida e à música. "Avatara" está presente em muitas culturas ancestrais e actuais, inclusive na portuguesa. Significa "Aquele que vem"...». Tem, portanto, algo de messiânico e de sebastiânico, até... «Sim, é o "Encoberto" e é alguém que vem tra
nsmitir uma nova consciência cósmica. Chegámos ao "Avatara" através de uma filosofia chamada Eubiose...». Na ficção dos Blasted, «Avatara» surge na sequência lógica da «fase da recolha e da tutoria dos bébés-diamantes (presente em "Namaste"), que vieram para sincronizar o Homem com o mecanismo cósmico». E acrescenta Ary: «Traduzido à letra, "Avatara", é um Messias, mas p
ara nós é mais a ideia da concretização de uma "conspiração", aqui no bom sentido, que tem como objectivo, através do "Avatara", termos todos a consciência global de que temos que mudar a maneira como encaramos o tempo, o calendário, e como mecanizamos a nossa vida ao ponto de
perdermos quase completamente o nosso lado espiritual».
Digo-lhes que há poucos dias tinha entrevistado outro artista português, José Castro - a propósito do álbum «Tree of Life» - e que ele tem algumas ideias paralelas aos Blasted: «o Homem precisa de parar para sentir; como as árvores». Os Blasted não conhecem José Castro, mas revêem
-se na ideia: «É isso mesmo. A ideia é parar o tempo. A forma de estar mais harmoniosa está presente nas árvores, que comunicam inclusive entre elas... São pontos fixos, de uma grande longevidade, que largam sementes para se espalhar no vento... No "Avatara", agora falando mais da (nossa) ficção, se viemos tutorizar e preparar as crianças-diamante, há que preparar agora o cenário para o "alinhamento": a compreensão de que o tempo tem que deixar de existir. Enquanto o Homem estiver ligado ao
calendário pobre que é o gregoriano, há-de estar sempre ligado à robotização, a um mecanismo dependente de terceiros, nunca dele próprio. Como dizia o Agostinho da Silva, o importante não é ter, é ser». E acrescentam que «ser um artista, um músico, é um privilégio que nos permite pensar
mais no ser do que no ter. Estamos um pouco à parte, em contra-corrente, a puxar as coisas para o outro lado... E também vemos o resultado disso no público. Há fãs nossos que mudaram de vida, que nos dão conta de que, a partir do concertro X - e apanhando coisas do ar, "I believe", "are you ready?", "children of the re-evolution" - foram investigar o calendário maia, apanharam a onda "na
maste", e mudaram a sua forma de viver».
Os Blasted vêem-se, então, como gurus de alguma coisa?... «Não somos nós, porque estas ideias já vêm de trás. A religião que se pratica agora é a religião do consumo, do ter. É curioso porque fomos filmar o nosso teledisco a Marrocos e não fomos lá porque é "giro", mas porque, apesar de tudo, o Islamismo é uma religião que é mais espiritual do que algumas das outras. Eles param cinco vezes ao dia (para rezar). E parar é reflectir, é repor os nossos níveis de bem-estar. Lá, em alguns sítios, eles têm a c
onsciência de "Avatara", de não olhar para o relógio, nem para o ontem nem para o amanhã. O problema da Europa é que não está em 2005, já está em 2006: o espírito das pessoas está num amanhã constante, num objectivo... um crédito no banco, ter mais e mais...». E fala-se de Enki Bilal: «O Bilal (célebre autor de BD) tem um filme, "O Imortal", em que ele vê as pessoas, no futuro, não com
um nome e uma nacionalidade mas como números de grandes corporações globais. Imaginemos: o meu bilhete de identidade não é português, é da Sonae...».
Essa transmissão da «mensagem», que já afectou alguns dos fãs dos Bl
asted, é uma das razões para o grupo ter adoptado, no novo álbum, quase por completo a língua inglesa, em detrimento do dialecto «karkoviano»: «Foi uma necessidade que o Karkov (vocalista e letrista) teve para fazer passar uma mensagem concreta. Essa preocupação já existiu no "Namaste" e é agora ainda mais premente. Assim fica mais fácil a compreensão deste imaginário Blasted. Mas não estamos presos a isso. Se calhar o próximo álbum é todo em karkoviano. Somos "deuses" do nosso próprio universo, por isso podemos criá-lo à nossa medida. E isto só há-de acabar, se calhar, um dia, quando já não tivermos mais nada para dizer. Com um final feliz (risos)».
E enquanto esse final não se vislumbra no horizonte (digamos, temporal), há outras coisas a saber sobre os Blasted. Por exemplo, que «Avatara» é o primeiro álbum do grupo a ter lançamento mundial através da editora alemã A-Label e que, através de um agente europeu, «o novo álbum foi j
á apresentado em duas cidades da Suiça e duas da Alemanha. Eram públicos que nunca tinham visto Blasted e no início dos espectáculos ficaram um bocado a olhar, mas depois deixaram-se levar. E, digamos assim, aquele gajo que estava lá à frente a tirar-nos a onda toda rapidamente se tornou
um aliado de festa. Em Munique foi uma grande festa mesmo». E, dizem, é bom que o «Avatara» possa chegar a muito mais pessoas. Mais a mais porque «finalmente, os Blasted são outra vez uma banda», com a entrada de Luís Simões (dos Saturnia e com o pseudónimo Zymon nos Blasted Mechanism) na sitar e na guitarra eléctrica, ainda na digressão de «Namaste» e entrando para o núcleo de c
ompositores de «Avatara» - «o Luís é uma pessoa única, completamente fora, e é super-perserverante no seu trabalho de músico. E é um grande conhecedor de muita música que os Blasted não conheciam, inclusive de música portuguesa que nós não conhecíamos -- os anos 60, 70, rock progressivo, psicadélico...»; o percussionista Nuno Patrício (Dumdumba, Dazkarieh, Uxu Kalhus.
..; aka Winga), «pela necessidade de voltar ao tribalismo das peles, ao ritmo, a África... e ele toca imensos instrumentos diferentes, das steel-drums a uma trompa tibetana de seis metros de comprimento»; e o baterista Fred Stone (Sync), que já acompanha a banda há alguns anos.
Os Blasted como «banda» - e também por serem uma «banda» - são, neste álbum, mais orgânicos de que em discos anteriores e - apesar de imensas ramificações musicais presentes no disco - parece, muitas vezes, um encontro de raggas jamaicanos com ragas indianas. «Há um calor vindo de África e das suas ramificações em músicas jamaicanas, americanas, com a sensualidade oriental que não vem só da sitar, vem também das melodias e das harmonias. Há aqui uma mescla de coisas que, no
fundo, sempre foram influências dos Blasted e que, agora, ao vivo, têm muito mais potencial. Há muito mais actividade física, ao vivo, paralelamente a cenários e projecções de imagens em que exploramos o nosso universo (conceito presente nos concertos da digressão de apresentação do álbum)».
Em «Avatara» estão presentes vários convidados, entre os quais a
cantora Maria João: «ela canta num dialecto africano, mas não a convidámos só por causa dessa ligação a África, foi mais pela liberdade como ela encara a música, pelo experimentalismo, pela improvisação. Ela improvisou, nós não, e isso abre portas que nós nunca abriríamos. Ela é fantástica... é um sintetizador humano, faz sons inimagináveis com a voz». E outros: «o clarinetista Luigi Lust (Luís Bastos), que já colabora connosco há alguns anos - foi ele o grande responsável pela nossa entrada
no klezmer...», outro colaborador habitual, Salvatori Tiliba (aka Henrique Figueira; coros; responsável pelo projecto de imagem ao vivo), e duas contribuições de fora da «família»: o grupo hip-hop Dealema «numa música que tinha uma cadência old-school, e os Dealema foram muito ráp
idos e profissionais, escrevendo uma coisa muito gira - uma espécie de um tributo - e é um choque ouvir o disco, chegar ali e ouvir uns gajos em português»; e o DJ NelAssassin, que «é um mágico dos pratos».
Ainda antes do álbum saiu o DVD dos Blasted, «um documento para os fãs, os coleccionadores. Tem muitos espectáculos, principalmente de 2000 a 2003, tem telediscos, imagens de bastidores... Tem N coisas que, de outra maneira, os fãs teriam que ir roubar a cassetes VHS. Deu uma grande trabalheira mas também deu muito prazer». E, para o futuro próximo, a estrutura editorial dos Blasted
, a Toolateman, prevê a edição de álbuns dos Cartel 70 (ragga/drum'n'bass/hip-hop) e do DJ Dimitrivzki (o alter-ego dos Blasted para remisturas), e o apoio editorial a dois projectos guineenses, Tama La e Bela Nafa, e a um outro, euro-africano, Kandoo (projecto paralelo de Vald'jiu.