terça-feira, 2 de setembro de 2008

Stonehenge

Normalmente, o visitante avista-o primeiro de relance, a partir da estrada. Para quem conduz em velocidade na estrada A303, que descuidadamente quase atravessa a entrada do monumento, Stonehenge assemelha-se a um aglomerado de protuberâncias insignificantes na vasta planície, onde não existe qualquer outro relevo de interesse. Texto de Caroline Alexander; Fotografias de Ken Geiger
Apreciado de perto, entre a confusão de pedras quebradas e erectas, continua a parecer não justificar a sua elevada reputação, apesar do notável empreendimento que terá representado o levantamento dos célebres blocos de arenito (o maior pesa 50 toneladas). Singular na actua-lidade, Stonehenge também foi provavelmente singular no seu tempo, há cerca de 4.500 anos – um monumento de pedra modelado sobre alicerces de madeira. Com efeito, os enormes lintéis encontram--se fixados na sua posição vertical por meio de juntas de encaixe-mecha-respiga inspiradas na carpintaria, eloquente indicação de quão radicalmente novo este monumento híbrido terá sido. É esta a sua inovação: a consciência declarada de que nada do género existira no passado, esta qualidade reveladora, ainda hoje palpável nas suas pedras arruinadas. Os homens que construíram Stonehenge descobriram algo até então desconhecido, tiveram uma revelação, dobraram uma esquina – ninguém duvida de que as pedras, assentes com uma determinada intenção, se encontram imbuídas de significado. O que significam elas ao certo? Apesar das inúmeras teorias propostas ao longo dos séculos, ninguém sabe. Stonehenge é a mais famosa relíquia da pré-história europeia e um dos monumentos mais conhecidos e debatidos em todo o mundo. Porém, não dispomos ainda de uma ideia segura sobre as funções que o monumento desempenhou para aqueles que o erigiram. No passado, os arqueólogos esforçaram-se por resolver este enigma, retirando das pedras todos os factos possíveis de extrair, submetendo a escrutínio os seus contornos, as suas marcas e, até, as suas sombras. A pesquisa recente, porém, levou os investigadores mais além, para longe de Stonehenge propriamente dito, até aos vestígios de uma aldeia neolítica descoberta na vizinhança, por um lado, e de uma montanha escarpada no Sudoeste de Gales, por outro. Embora ainda não tenha surgido uma resposta definitiva, estas duas investigações em curso permitiram formular hipóteses entusiasmantes.Stonehenge surgiu de uma rica tradição de estruturas igualmente enigmáticas. Os henges (recintos circulares definidos por taludes de terra e fossos concêntricos), os montículos e montes funerários, as estruturas circulares de madeira, os monólitos, círculos e ferraduras de pedra são comuns na Grã-Bretanha neolítica e em determinadas zonas da Europa continental. Em rigor, Stonehenge nem é um recinto, ao contrário do que o nome sugere, pois existe inversão sequencial no posicionamento do seu talude e fosso. De certa forma, o monumento reflectiu muitas destas tradições em diferentes fases da sua evolução. As primeiras pedras que seguramente pertencem à estrutura de Stonehenge, as pedras azuis, chegaram ao local antes de 2500 a.C., transportadas a partir do País de Gales por via fluvial e, depois, arrastadas por via terrestre. Seguiram-se os blocos gigantes de arenito, que preencheram o monumento que, em determinado momento, terá sido ligado ao rio Avon por uma avenida. Stonehenge representa assim o culminar de uma evolução dinâmica: as terraplenagens feitas na pradaria antes da implantação das pedras foram provavelmente inspiradas por crenças diferentes das que nortearam o monumento posterior de pedra, decididamente relacionado com a água. Para quem se posiciona em pé dentro dos círculos formados por pedras tombadas, não é fácil perceber a planta original do monumento. Mais fácil é imaginar os actos subjacentes: o planeamento e a engenharia; a diplomacia necessária para negociar o transporte de pedras através de diferentes territórios; as diligências logísticas para sustentar e equipar uma força de trabalho; a capacidade para persuadir, inspirar e compelir homens fisicamente aptos a deixar os seus animais, campos e territórios de caça.

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